BOATOS, VINGANÇA E SANGUE NO SERTÃO: A MORTE DE ZÉ GROSSO E A CHACINA DOS TROPEIROS DA SERRA NEGRA
Por Manoel Belarmino
No sertão
do Alto São Francisco, durante os anos mais intensos do cangaço, boatos eram
tão letais quanto balas. Em Poço Redondo e na Serra Negra, muitas mortes não
nasceram de confrontos diretos, mas de mentiras espalhadas de boca em boca. Foi
assim na morte de Zé Grosso, irmão do cangaceiro Diferente, e na chacina dos
tropeiros da Serra Negra, episódios que ainda ecoam na memória sertaneja.
Em 1936, a Serra Negra de João Maria — hoje município de Pedro Alexandre — tornou-se refúgio de famílias inteiras vindas de Poço Redondo. Fugiam tanto da violência do cangaço quanto da repressão das volantes. À frente desse abrigo estava o coronel João Maria, figura influente, respeitada, capaz de oferecer proteção contra os homens armados do Estado. Contra a força das mentiras, porém, nem mesmo seu prestígio bastava.
O comandante volante Zé Rufino via com desconfiança todos os sertanejos de Poço Redondo, a quem rotulava como possíveis coiteiros ou informantes de cangaceiros. Ainda assim, evitava agir abertamente contra eles por respeito ao poder de João Maria. Esse equilíbrio frágil foi rompido quando uma boataria cruel começou a circular pela Serra Negra.
O boato afirmava que três jovens de Poço Redondo estavam prestes a ingressar no cangaço: João de Terto, Zé de Emídio — filho de Emídio da Risada — e Zé Grosso, irmão do cangaceiro Diferente. Sem provas, os três passaram a ser tratados como inimigos. A ordem atribuída por Zé Rufino era direta: deveriam morrer.
Zé Grosso foi encontrado em sua pequena casa, no alto da Serra Negra, agachado, consertando uma cerca de madeira. Não houve confronto. Dois tiros encerraram sua vida. Um homem sem envolvimento com o cangaço tombava vítima da mentira e da violência institucionalizada.
A verdade veio tarde demais. Nem Zé Grosso nem Zé de Emídio pretendiam entrar no cangaço. Apenas João de Terto demonstrava essa intenção. Para Zé Grosso, restou a morte injusta, marcada pela combinação perversa entre boatos e balas.
A execução de Zé Grosso incendiou o espírito do irmão, o cangaceiro Diferente. Tomado pelo desejo de vingança, ele decidiu punir aqueles que, direta ou indiretamente, contribuíram para a morte do irmão. Ao lado dos cangaceiros Cuidado e Beija-Flor, planejou um ataque que teria grande repercussão na região.
O alvo foram os tropeiros da Serra Negra, responsáveis pelo transporte de algodão pertencente a Galdino Leite, com destino aos armazéns de Pão de Açúcar. A emboscada foi armada na estrada que ligava a Serra Negra ao porto de Curralinho, um trecho movimentado e estratégico.
Numa tarde de terça-feira de 1936, os tropeiros Silvino, Miguel Cassimiro, Manezinho Isidoro e Pedro Caibeiro retornavam de Pão de Açúcar, conduzindo seus burros de carga. Pouco depois da fazenda Tanque Novo, foram surpreendidos pelos cangaceiros escondidos à margem da estrada.
Ao cair da noite, os tiros romperam o silêncio do sertão. Manezinho Isidoro, Pedro Caibeiro e Miguel Cassimiro morreram no local. Silvino teve a vida poupada. Coube a ele levar à Serra Negra a notícia da chacina, espalhando o medo e o luto por toda a região.
Os episódios revelam uma face cruel do cangaço e da repressão oficial: a de um sertão onde boatos matavam, inocentes pagavam com a vida e a violência se reproduzia em ciclos de vingança. Mais do que histórias isoladas, a morte de Zé Grosso e a chacina dos tropeiros expõem a fragilidade da justiça no sertão e o peso duradouro da palavra mentirosa na história nordestina.

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