Pedro Batista, Madrinha Dodô e o povo de Santa Brígida: a fé que caminhou pelo sertão
Manoel Belarmino
No coração do sertão baiano, a cerca de 450 quilômetros de Salvador, existe uma cidade onde a fé popular se mistura à poeira das estradas, às promessas pagas de joelhos e às histórias contadas ao redor dos oratórios. Santa Brígida não é apenas um município perdido entre a caatinga e o silêncio do Nordeste profundo. É um território de romarias, milagres e devoção. Terra onde ainda ecoa a memória do conselheiro Pedro Batista e de sua mais fiel discípula, Madrinha Dodô.
Para muitos sertanejos, Pedro Batista não foi somente um homem. Foi santo, conselheiro, curador e guia espiritual. Um daqueles personagens que o sertão produz de tempos em tempos, como se a própria terra rachada necessitasse gerar homens capazes de aliviar a dor do povo.
Antes de chegar a Santa Brígida, Pedro Batista já peregrinava pelos caminhos ásperos de Alagoas, Sergipe e Pernambuco. Sua fama corria ligeira pelos povoados: homem sábio, de fala mansa, rezador forte, capaz de aconselhar aflitos, expulsar maus espíritos e curar enfermidades da alma e do corpo. Há quem diga que seus passos alcançaram também as regiões de Poço Redondo, Monte Alegre de Sergipe e Carira, antes de seguir para Jeremoabo e finalmente se fixar em Santa Brígida.
Sua chegada à povoação da Santa Brígida ocorreu em 14 de junho de 1945. E daquele dia em diante, a história do lugar nunca mais seria a mesma.
A notícia espalhou-se rapidamente pelos sertões nordestinos: “Pedro Batista está em Santa Brígida”. Então começaram as caminhadas. Homens e mulheres deixavam suas terras, alguns trazendo apenas roupas, esperança e fé. Vinham em centenas. Muitos chegavam para visitar o conselheiro; outros, para nunca mais partir. Compravam pequenos terrenos, alugavam casas simples, erguiam ranchos de barro e palha. Aos poucos, formava-se um arraial de seguidores ao redor do líder religioso.
No meio daquele povo de romeiros surgiu uma mulher de presença silenciosa, mas de enorme força espiritual: Madrinha Dodô.
Nascida em 1902 com o nome de Maria das Dores, ela vinha das terras de Água Branca, em Alagoas, e carregava consigo a influência das romarias de Padre Cícero. Ainda menina, aos 12 anos, passou a acompanhar Pedro Batista em peregrinações e trabalhos comunitários por cidades nordestinas. Com o tempo, tornou-se sua principal seguidora espiritual.
Madrinha Dodô ajudava os pobres, acolhia retirantes, organizava orações e fortalecia os laços comunitários entre os romeiros. Sua dedicação aos necessitados fez com que fosse comparada até mesmo à Irmã Dulce, símbolo da caridade baiana.
Enquanto Pedro Batista pregava e aconselhava, Dodô cuidava do povo.
O movimento religioso cresceu tanto que Santa Brígida transformou-se completamente. Mesmo acusado por autoridades e setores da Igreja de incentivar o “fanatismo religioso”, Pedro Batista conquistou enorme influência popular. Graças à sua liderança, houve distribuição de terras para famílias pobres, implantação de escolas e chegada da eletricidade à cidade — conquistas raras em muitos rincões sertanejos daquela época.
Mas sua força maior vinha da devoção popular.
Em muitas casas sertanejas, sua imagem ainda ocupa lugar de honra entre santos católicos e entidades da religiosidade popular nordestina. Na pequena casa de rezas de Dona Zefa da Guia, por exemplo, o retrato de Pedro Batista repousa ao lado de imagens de Nosso Senhor Jesus Cristo, da Mãe das Dores, do Preto Velho e de Padre Cícero. Ali, ele não é lembrado apenas como homem: é venerado como santo do sertão.
Pedro Batista morreu em 11 de novembro de 1967, aos 80 anos. Sua partida não encerrou sua presença entre os romeiros. Pelo contrário: fortaleceu o mito.
Décadas depois, Madrinha Dodô também partiria. Morreu aos 92 anos, em Juazeiro do Norte, sendo depois sepultada em Santa Brígida, cidade que ajudou a transformar em centro de peregrinação popular.
Hoje, mesmo em tempos modernos, quando estradas asfaltadas substituíram antigos caminhos de poeira, milhares de sertanejos continuam caminhando rumo a Santa Brígida. Todos os anos, homens, mulheres e crianças participam da tradicional Romaria de Pedro Batista e Madrinha Dodô, renovando promessas, pagando votos e mantendo viva uma das mais fortes expressões da religiosidade popular nordestina.
Porque no sertão, onde a seca castiga e a esperança insiste em sobreviver, a fé ainda caminha a pé.


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