SANTO ANTÔNIO DO POÇO DE CIMA, SUA FESTA E UM POUQUINHO DA HISTÓRIA DE POÇO REDONDO
A pequena capela está situada na antiga Fazenda Poço de Cima, propriedade de Manoel Cardoso de Sousa, considerada um dos núcleos originários da povoação que deu origem ao atual município de Poço Redondo. Naquele lugar nasceram histórias, tradições e relações sociais que moldaram a identidade de uma comunidade inteira.
Quando chegam os festejos de Santo Antônio, é impossível não imaginar como eram os antigos caminhos que cruzavam a região. Um deles ligava o Poço de Cima ao povoado Santo Antônio do Curralinho. Por essas veredas sertanejas passaram tropeiros, viajantes, vaqueiros e peregrinos. A tradição popular sustenta que por ali também percorreu Antônio Conselheiro, acompanhado de seus seguidores, em sua caminhada rumo a Canudos, na Bahia, vindo das terras de Santo Antônio de Quixeramobim, no Ceará.
Esses caminhos guardam marcas invisíveis da história. Eles testemunharam a chegada da imagem de Santo Antônio ao Poço de Cima, acompanharam a construção da capela e presenciaram o crescimento da antiga fazenda, com sua casa-grande, suas áreas de trabalho e as moradias que gradativamente surgiram ao redor. Foram eles que ligaram o passado ao presente.
Há fortes indícios de que desde a década de 1850 já aconteciam celebrações religiosas na capelinha construída pela família Cardoso de Sousa. Embora não existam registros que comprovem a realização de missas regulares na povoação antes da construção da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, no atual centro urbano de Poço Redondo, diversas evidências apontam para a existência de uma intensa religiosidade popular no Poço de Cima.
Mesmo sem a presença constante de sacerdotes, os moradores realizavam novenas, rezas, ladainhas e celebrações comunitárias que mantinham viva a tradição católica sertaneja. Um dos mais importantes vestígios dessa prática religiosa é um antigo livro de partituras encontrado na própria capela.
Durante anos, após a transferência gradual da população para o núcleo urbano que se consolidou como Poço Redondo, a capelinha permaneceu esquecida. Foi nesse período que surgiu a descoberta desse valioso documento histórico. O livro contém cantos religiosos, ladainhas e "incelências" utilizadas nas celebrações da época.
Na capa da obra aparece o nome de José Lucas de Sousa, conhecido como Zé Lucas, neto de Manoel Cardoso de Sousa. Também está registrada a data de seu nascimento: 24 de fevereiro de 1877. Filho de Lucas e Maria Rosa, Zé Lucas pertenceu à geração que herdou e preservou os costumes religiosos da família fundadora.
Esse simples registro possui enorme relevância histórica. Ele reforça a compreensão de que a Fazenda Poço de Cima já estava consolidada na segunda metade do século XIX e sugere que sua origem remonta à primeira metade daquele século. Consequentemente, a construção da capela e o estabelecimento das práticas religiosas locais também podem ser situados nesse período.
A presença da devoção a Santo Antônio constitui outro elemento significativo dessa narrativa. É possível que a imagem do santo tenha acompanhado os Cardoso de Sousa desde o povoado Santo Antônio do Curralinho até o Poço de Cima, fortalecendo a continuidade de uma tradição religiosa que atravessou gerações e permanece viva até os dias atuais.
Ao redor da capela encontra-se outro patrimônio de valor inestimável: o antigo campo santo. Ali repousam homens e mulheres que participaram da formação do povo poço-redondense. Entre eles estão Antônio Cardoso de Sousa e seus familiares, João Lucas de Sousa, conhecido como João de Tindinha, Antônio Cardoso, Delfina Cardoso, Cícero Correia, o popular Cícero de Enoque, além de tantas outras pessoas cujas histórias permanecem gravadas na memória coletiva da comunidade.
Mais do que um espaço de sepultamento, aquele terreno representa um elo permanente entre passado e presente. É o lugar onde os ancestrais continuam vivos através dos ensinamentos, dos valores culturais e da fé transmitida aos mais jovens.
Celebrar o Poço de Cima é celebrar a continuidade da vida. É reconhecer que a história não está apenas nos documentos, mas também nos rostos, nos gestos, nas rezas e nos costumes herdados das gerações anteriores. É perceber que os valores cultivados por figuras como Enoque e Cícero de Enoque permanecem presentes nos seus descendentes, como Enoque Correia, João Vítor e tantos outros homens e mulheres que continuam lutando para preservar a cultura e a religiosidade popular do sertão.
Poço Redondo nasceu no Poço de Cima. Compreender essa verdade histórica é fundamental para fortalecer a identidade do município. Conhecer as raízes é valorizar o presente e construir o futuro com consciência de pertencimento.
Nos tempos atuais, uma nova geração de descendentes das famílias pioneiras assumiu a missão de cuidar da antiga capela e manter viva a Festa de Santo Antônio. Graças ao empenho dessas pessoas e ao incentivo recebido durante o período em que o Padre Mário César esteve na paróquia, as celebrações voltaram a acontecer com maior regularidade, reunindo moradores, visitantes e devotos em torno da fé e da memória.
Cada celebração realizada naquele lugar reafirma a permanência de uma história construída ao longo de mais de um século. A capelinha continua sendo um símbolo da origem, da resistência e da identidade do povo poço-redondense.
Em novembro de 2025, o Cariri-Cangaço consagrou o Poço de Cima como Lugar de Memória, transformando aquele sítio histórico em símbolo sagrado que evita o esquecimento, honra o passado e educa as futuras gerações sobre as lutas e conquistas que moldaram a sociedade.
Por isso, merece reconhecimento o trabalho de João Vítor, Enoque Correia e de todos aqueles que dedicam tempo e esforço à preservação desse patrimônio histórico e religioso. Graças a eles, o Poço de Cima continua vivo no coração do povo.
Que Santo Antônio continue abençoando esta terra sertaneja e seu povo. Que os ancestrais que enfrentaram as dificuldades nas caatingas permaneçam inspirando as novas gerações. E que a memória do Poço de Cima jamais seja esquecida, pois nela repousam as raízes mais profundas da história, da cultura e da fé de Poço Redondo.
*Manoel
Belarmino dos Santos – estudante do Curso Superior de Tecnologia em Gestão de
Turismo (Uniasselvi – polo Canindé) e formando em Jornalismo (Estácio – polo
Glória) – Registro Profissional (DRT) nº 2678/SE.

Belo texto, explícito e certeiro ao reconhecer o valor histórico, de fé e cultural da memória de um povo pioneiro , parabéns em nome do Grupo de Amigos do Poço de Cima.
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