Manoel Belarmino*
Os sinais de aquecimento
observados em diversas partes do planeta podem parecer distantes da realidade
do sertanejo, mas os impactos das mudanças climáticas globais têm reflexos
diretos no cotidiano de municípios do semiárido nordestino, como Poço Redondo,
no Alto Sertão de Sergipe.
Dados divulgados pela
organização americana Berkeley Earth mostram que maio de 2026 foi o segundo
mais quente já registrado no planeta, ficando atrás apenas de maio de 2024.
Embora nenhum mês deste ano tenha alcançado recordes globais absolutos de
temperatura, especialistas alertam que o retorno do fenômeno El Niño pode
provocar uma elevação significativa das temperaturas médias globais entre o
final de 2026 e o decorrer de 2027.
Para regiões semiáridas, a
preocupação é ainda maior. O El Niño é conhecido por alterar os padrões
climáticos e, historicamente, está associado à redução das chuvas em boa parte
do Nordeste brasileiro. Em municípios como Poço Redondo, onde a população convive
há séculos com os desafios da seca e da irregularidade das precipitações, o
aumento das temperaturas pode intensificar problemas relacionados ao
abastecimento de água, à produção agropecuária e à segurança alimentar.
A Berkeley Earth estima
uma probabilidade de 62% de ocorrência de um El Niño considerado muito forte.
Caso essa projeção se confirme, o fenômeno poderá contribuir para que 2027
dispute o posto de ano mais quente da história recente, superando inclusive os
recordes registrados em 2024.
Os efeitos do calor
extremo já são sentidos em várias regiões do mundo. Nos últimos meses, países
da Europa enfrentaram ondas de calor intensas, enquanto maio registrou
temperaturas excepcionalmente elevadas em diversas partes da Ásia, África e
Oceania. Embora algumas áreas da América do Sul tenham apresentado condições
mais amenas, os cientistas alertam que a tendência geral continua sendo de
aquecimento.
No sertão de Sergipe, onde
os termômetros frequentemente ultrapassam os 35 graus durante os períodos mais
secos do ano, o cenário exige atenção redobrada. Agricultores familiares,
criadores de gado bovino de leite e comunidades rurais dependem diretamente das
condições climáticas para garantir produção e renda.
Especialistas destacam que
o El Niño, por si só, é um fenômeno natural. No entanto, seus efeitos vêm sendo
potencializados pelo aquecimento global provocado pelas atividades humanas,
especialmente pelo desmatamento e pela queima de combustíveis fósseis como
carvão, petróleo e gás natural.
Diante desse contexto,
ganha importância a adoção de medidas de convivência com o semiárido, incluindo
a ampliação da captação e armazenamento de água da chuva, a preservação da
Caatinga, o fortalecimento da agricultura resiliente ao clima e o investimento
em políticas públicas voltadas à adaptação às mudanças climáticas.
Para Poço Redondo,
município que abriga uma das maiores extensões territoriais de Sergipe e
importantes áreas de Caatinga preservada, os alertas científicos reforçam a
necessidade de planejamento ambiental e gestão sustentável dos recursos
naturais. Afinal, o que acontece na atmosfera global acaba refletindo, mais
cedo ou mais tarde, na realidade do sertão.
*Manoel Belarmino dos Santos - escritor, cordelista e jornalista (Registro Profissional nº 2678/SE.
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