POÇO REDONDO ENTRA NO MAPA DAS PESQUISAS SOBRE TERRAS RARAS E MINERAIS ESTRATÉGICOS EM SERGIPE
Pesquisas da UFS investigam granitos com potencial para concentrar minerais de interesse econômico em uma faixa que vai de Nossa Senhora da Glória a Canindé de São Francisco
Manoel Belarmino
Pesquisadores da Universidade Federal de Sergipe (UFS) vêm estudando, há cerca de dez anos, uma extensa faixa geológica que começa em Nossa Senhora da Glória, passa por Poço Redondo e chega até Canindé de São Francisco. O objetivo é investigar granitos que podem conter minerais capazes de concentrar terras raras e outros elementos considerados críticos e estratégicos para a indústria de alta tecnologia.
Os
estudos são coordenados pelo professor titular de Petrologia Herbert Conceição,
juntamente com outros pesquisadores da universidade. O trabalho já despertou o
interesse de empresas do setor, que mantêm contato com a equipe científica. Por
questões de confidencialidade, entretanto, o pesquisador não revela os nomes
das companhias nem informações específicas sobre determinadas áreas
investigadas.
UMA PAISAGEM QUE ESCONDE INFORMAÇÕES GEOLÓGICAS
A região estudada possui diversas intrusões graníticas, grandes corpos de granito formados quando o magma penetra outras rochas no interior da crosta terrestre e, posteriormente, se resfria e se solidifica.
Essas formações estão sendo mapeadas pelos pesquisadores, que procuram compreender sua extensão, composição e distribuição dos minerais.
“Glória tem várias intrusões de granito que vão até Canindé. Então nós estamos reconhecendo a forma dos corpos, coletando amostras, [buscando] saber se a composição varia, se esses minerais de interesse econômico estão mais concentrados num lugar ou no outro”, explica Herbert Conceição.
Em Poço Redondo, segundo o professor, algumas dessas formações podem ser observadas na própria paisagem.
“Imagine a entrada de Poço Redondo. Você vê os lajedões ali, não é?”, observa.
O que
para moradores e visitantes pode parecer apenas parte da paisagem sertaneja,
para os geólogos pode representar uma importante janela para compreender a
história geológica e o potencial mineral do território.
TERRAS RARAS: MINERAIS ESSENCIAIS À TECNOLOGIA MODERNA
Entre os principais objetivos da pesquisa está a identificação e caracterização de minerais capazes de concentrar elementos de interesse econômico, especialmente as chamadas terras raras.
Apesar do nome, terras raras não são necessariamente raras na natureza. O desafio está, muitas vezes, em encontrá-las em concentrações economicamente viáveis e desenvolver tecnologias capazes de separá-las e refiná-las.
Um dos elementos de maior interesse é o neodímio, utilizado na fabricação de ímãs permanentes de alto desempenho. Esses componentes são fundamentais para diversas aplicações tecnológicas modernas.
“O mais importante é o neodímio. Esse elemento dentro de um produto tecnológico é um avanço enorme”, destaca Herbert.
Os estudos também consideram outros elementos estratégicos, entre eles nióbio, tântalo, urânio, zircônio e rádio.
Entretanto, a simples presença de um determinado elemento químico em uma rocha não significa que exista uma jazida economicamente explorável.
É
necessário saber quanto mineral existe, qual é sua concentração, como poderá
ser extraído, qual tecnologia será necessária para seu processamento e quanto
custará toda a operação.
DA DESCOBERTA À POSSÍVEL MINERAÇÃO
Transformar uma descoberta geológica em uma mina é um processo longo e complexo.
Segundo Herbert Conceição, em uma situação extremamente favorável, uma ocorrência mineral poderia chegar à exploração em aproximadamente cinco anos. Porém, o período mais comum é muito maior.
“A média é de 10 a 15 anos para você identificar e ter a mina em funcionamento, tirando o bem mineral. É o normal, em todo lugar do mundo”, explica.
No caso da região do Alto Sertão Sergipano, as pesquisas da UFS já acumulam aproximadamente uma década de estudos.
Esse período representa uma mudança importante no conhecimento científico sobre a região.
“Antes a gente nem sabia se essas coisas existiam. Hoje a gente sabe onde existe. Nós estamos trabalhando agora para tornar isso econômico”, afirma o professor.
A pesquisa, portanto, avança para uma etapa em que os cientistas procuram cartografar as intrusões graníticas, coletar e analisar rochas e minerais e avaliar a concentração dos elementos de interesse.
“As
nossas pesquisas estão nesse ponto de cartografar as intrusões, tirar as rochas
e vários minerais potenciais para exploração”, ressalta Herbert.
POTENCIAL MINERAL NÃO SIGNIFICA MINA IMEDIATA
Um dos principais cuidados ao tratar de pesquisas sobre terras raras é não confundir potencial geológico com jazida mineral economicamente comprovada.
Uma determinada rocha pode apresentar um elemento de interesse, mas sua exploração somente será possível se a concentração, o volume, a tecnologia disponível e as condições econômicas tornarem o empreendimento viável.
Herbert utiliza o ouro como exemplo. Dependendo do preço do metal e da tecnologia empregada, pode ser economicamente interessante processar toneladas de rocha para obter apenas alguns gramas. Em outras circunstâncias, porém, o custo de extração e beneficiamento pode tornar a atividade inviável.
É
justamente essa avaliação que os pesquisadores buscam realizar.
“SERGIPE TEM GRANDES POTENCIALIDADES”
Para Herbert Conceição, o potencial geológico de Sergipe merece atenção.
Os granitos estudados pela UFS podem representar, no futuro, uma nova possibilidade econômica para o Estado, que também vive um momento de expansão das perspectivas relacionadas à exploração de petróleo e gás natural, especialmente em águas profundas.
“Granito é uma rocha muito promissora para gerar esses metais. São vários deles que você usa no dia a dia e nem sabe”, destaca.
As pesquisas conduzidas por Herbert estão relacionadas também aos trabalhos da professora Maria de Lourdes da Silva Rosa, da UFS.
Segundo a pesquisadora, estudos realizados em Sergipe já permitiram identificar minerais portadores de elementos terras raras e minerais associados aos chamados minerais críticos.
“Sergipe
possui rochas de natureza mais alcalina consideradas potenciais para a presença
desses elementos, e os projetos contam com apoio da Fspitec, da UFS e do CNPq”,
revela Maria de Lourdes.
O VERDADEIRO DESAFIO: TRANSFORMAR MINÉRIO EM TECNOLOGIA
Encontrar minerais estratégicos é apenas o começo.
Para a professora Maria de Lourdes, um dos maiores desafios brasileiros está em desenvolver capacidade tecnológica para processar, separar e refinar esses elementos, agregando valor à produção mineral dentro do próprio país.
A pesquisadora alerta para o risco de o Brasil permanecer apenas como fornecedor de matéria-prima enquanto outros países dominam as etapas tecnológicas mais sofisticadas.
“Não podemos ficar vendendo o solo bruto para outro país, para esse país processar e ganhar mais dinheiro”, afirma.
A
preocupação ganha ainda mais relevância diante da importância das terras raras
para setores como eletrônica, energia, indústria automobilística, equipamentos
de alta tecnologia, defesa e produção de ímãs permanentes.
PESQUISADORA REPRESENTARÁ O NORDESTE EM MISSÃO INTERNACIONAL
Esse debate também estará presente na Missão Fulbright–CNPq sobre Terras Raras e Minerais Críticos, que será realizada nos Estados Unidos entre 19 de setembro e 1º de outubro de 2026.
Maria de Lourdes da Silva Rosa será uma das dez integrantes da delegação brasileira, sendo a única representante do Nordeste e a única geóloga do grupo.
A missão incluirá visitas e atividades científicas na Virginia Tech, na Colorado School of Mines e no Ames National Laboratory.
A
expectativa é ampliar a cooperação científica, estimular intercâmbios e
aproximar pesquisadores brasileiros de laboratórios e tecnologias que ainda não
estão disponíveis no país.
UM NOVO OLHAR PARA O SERTÃO SERGIPANO
As pesquisas da UFS colocam Poço Redondo e outros municípios do Alto Sertão Sergipano dentro de uma discussão que ultrapassa os limites regionais.
A possibilidade de existência de minerais associados a terras raras e outros elementos estratégicos insere a região em um cenário global de busca por recursos essenciais à indústria tecnológica.
Mas entre o granito existente na paisagem sertaneja e uma eventual futura mina existe um longo caminho: pesquisa científica, mapeamento geológico, análises laboratoriais, dimensionamento das ocorrências, estudos ambientais, desenvolvimento tecnológico, investimentos e comprovação da viabilidade econômica.
Por enquanto, o que existe é ciência, pesquisa e potencial geológico.
E, depois de uma década de estudos, uma coisa já mudou: os pesquisadores sabem muito mais sobre aquilo que está escondido sob os lajedões e formações rochosas do sertão.
Poço Redondo, conhecido pela força do leite, pela caatinga, pelo Rio São Francisco, pela história do cangaço e pela riqueza cultural de seu povo, também pode estar guardando, em suas rochas, elementos fundamentais para as tecnologias do futuro.
O sertão
que durante gerações foi visto principalmente como território de produção
agropecuária pode revelar também uma nova vocação: a de contribuir para o
conhecimento e para o desenvolvimento da mineração de minerais críticos e
estratégicos em Sergipe.

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