FREI ENOQUE, ANTÔNIO CONSELHEIRO E A TRADIÇÃO DE FÉ COLETIVA NO SERTÃO SERGIPANO

 
Manoel Belarmino*

O povoado de Curralinho, hoje pertencente ao município de Poço Redondo, no alto sertão de Sergipe, preserva uma das mais significativas tradições da religiosidade popular nordestina: a passagem de Antônio Conselheiro pela localidade por volta de 1874. A presença do beato, ainda anterior à fundação de Canudos, permanece viva na memória coletiva e nos vestígios materiais associados à sua atuação religiosa e comunitária.
 
Segundo registros históricos locais e a tradição oral transmitida entre gerações, Antônio Conselheiro chegou às margens do rio São Francisco “lá pelos idos de 1874”. Durante sua permanência, teria realizado pregações junto à população sertaneja, incentivando práticas de fé, penitência e trabalho comunitário. Como marco concreto dessa passagem, o líder religioso teria coordenado a reforma de uma capelinha rústica dedicada a Nossa Senhora da Conceição, além de mobilizar moradores em um mutirão para recuperação dos muros de pedra do cemitério do povoado.
 
O episódio é tradicionalmente associado à atual Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Curralinho, conhecida popularmente como “Igreja do Conselheiro”. O templo é considerado um dos principais vestígios históricos da presença do líder religioso no sertão sergipano e integra o conjunto de lugares ligados às andanças do beato antes da criação do arraial de Canudos. Esses espaços, muitas vezes erguidos com trabalho coletivo, tornaram-se referências de fé, sociabilidade e organização comunitária no interior nordestino.
 
A passagem por Curralinho insere-se no período itinerante de Antônio Conselheiro, quando
percorreu extensas áreas dos sertões de Sergipe, Bahia, Pernambuco e Alagoas. Nessa fase, o beato dedicava-se à construção e reforma de capelas, cemitérios e cruzeiros, além de realizar pregações que dialogavam com as dificuldades sociais vividas pelas populações sertanejas. Seu discurso enfatizava valores religiosos, justiça moral, solidariedade e resistência cultural, elementos que contribuíram para consolidar sua influência no Nordeste.
 
Em Curralinho, a tradição do trabalho coletivo iniciado no século XIX ganhou novo significado em 2012. Naquele ano, Frei Enoque Salvador de Melo promoveu a repetição simbólica do mutirão para reforma do cemitério do povoado. A iniciativa reuniu moradores locais, pessoas da região e fiéis de diferentes denominações, incluindo católicos e evangélicos. O momento foi marcado pela união comunitária, onde conselhos, trabalho e oração caminharam juntos, reafirmando o caráter solidário e ecumênico da ação.
 
A repetição do gesto histórico reforçou a permanência da memória cultural associada à passagem de Antônio Conselheiro. Mais do que um episódio religioso, o acontecimento representa a força da tradição sertaneja de cooperação, onde a fé se manifesta por meio do trabalho coletivo e do cuidado com espaços simbólicos da comunidade.
 
Assim, o povoado de Curralinho mantém viva uma herança histórica que ultrapassa o tempo. Entre pedras de cemitério, paredes de capela e narrativas transmitidas oralmente, permanece a lembrança de um líder religioso que, antes de Canudos, percorreu o sertão construindo não apenas igrejas, mas também vínculos comunitários que continuam a ecoar na cultura popular do alto sertão sergipano.

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