A CURA DO QUEBRANTO NA REZA DE DONA NITA


Manoel Belarmino

No sertão, há lembranças que o tempo não consegue apagar. Elas permanecem guardadas em algum canto da alma, como fotografias antigas protegidas da poeira dos anos. Entre as muitas recordações da minha infância na Serra Negra Velha, existe uma que sempre retorna quando penso nas crenças e nos saberes do nosso povo: a figura inesquecível de Dona Nita, a rezadeira.

Dona Nita morava numa simples casa de taipa, erguida na parte mais alta da comunidade, perto da Lagoa da Mata, de frente para a velha estrada que ligava Serra Negra Velha à cidade de Serra Negra, hoje Pedro Alexandre. Era uma mulher morena, de pele negra, alta, magra e de cabelos ainda escuros, apesar da idade já avançada. Tinha um olhar sereno e uma presença que inspirava respeito.

Sua casa era um lugar de fé. Ali aconteciam novenas, rezas e encontros comunitários. Mas era principalmente pelas benzeduras que ela se tornara conhecida em toda a região. Gente de perto e de longe procurava seus cuidados quando a medicina popular parecia ser o único remédio ao alcance.

Naquele tempo, os sertanejos acreditavam no mau-olhado, no quebranto e em tantas outras influências invisíveis que podiam roubar a saúde das pessoas, especialmente das crianças. E foi justamente isso que aconteceu comigo — ou pelo menos era o que minha mãe acreditava.

Lembro-me de que adoeci ainda menino. Minha mãe observou meu abatimento e logo decretou: eu estava com quebranto e mau-olhado. Até hoje não consigo compreender como alguém poderia sentir inveja de um menino tão desajeitado quanto eu era. Eu era magro, buchudo, zambeta, cabeçudo e vivia com os cabelos arrepiados. Quebranto, talvez. Mau-olhado, eu ainda duvido.

Mas mãe é mãe. E mãe sertaneja, quando acredita numa coisa, não há quem a faça mudar de ideia.

Foi assim que ela me levou até Dona Nita.

Ainda guardo na memória aquela cena. Eu estava sentado diante da rezadeira, amuado e silencioso. Ela segurava alguns ramos verdes nas mãos e me observava com atenção. Havia algo de sagrado naquele instante. O silêncio da casa, o cheiro da terra, o movimento suave das folhas e a voz quase sussurrada da rezadeira criavam uma atmosfera difícil de explicar.

Enquanto passava os ramos sobre minha cabeça, Dona Nita rezava baixinho: "Manoel, eu estou te curando. Com dois te botaram, com três eu te curo na graça do Divino Espírito Santo. Se te botaram no comer, no olhar, na carne, no sangue; se te botaram na tua esperteza, na tua gordura, no teu olhar, no teu sorriso, no teu comer, no teu café, na tua alegria, na tua tristeza. Todo olhado que tiver no corpo de Manoel, todo quebranto e olhado vai para as ondas e as profundezas do mar sagrado para nunca mais voltar."

Depois, ofereceu a reza ao Menino Jesus, às Cinco Chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo e à Virgindade de Maria Santíssima. Continuou passando os ramos sobre mim até que as folhas murchassem, sinal de que o quebranto estava sendo retirado.

Quando a reza terminou, saí dali diferente. Talvez fosse a força da fé, talvez o carinho da minha mãe, talvez a confiança depositada naquela mulher sábia. O fato é que me senti melhor.

Os anos passaram. A Serra Negra mudou, muita gente partiu e muitos costumes ficaram apenas na lembrança. Mas a imagem de Dona Nita continua viva na minha memória. Ela representa uma geração de homens e mulheres que curavam com a palavra, com a fé e com a confiança que o povo depositava em suas mãos.

Hoje, quando recordo aquela tarde distante, não sei dizer se realmente tive mau-olhado. Mas uma coisa tenho certeza: fui curado. E a cura veio pelas mãos de Dona Nita, a inesquecível rezadeira da Serra Negra Velha, guardiã de uma sabedoria que faz parte da história e da alma do nosso sertão.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

ACIDENTE AUTOMOBILÍSTICO DEIXA DUAS PESSOAS MORTAS EM POÇO REDONDO

Prefeito Vado Gavião entrega ambulância à UPA Zulmira Soares em Poço Redondo

LUTO EM POÇO REDONDO: MORRE O EX-VEREADOR MAURO VARJÃO