O ÍNDIO APAIXONADO NO BAR DO FUNDO DO MERCADO, NA FEIRA DA SERRA NEGRA
Manoel
Belarmino*
Ainda
carrego na memória as manhãs de feira livre da cidade de Pedro Alexandre, aos
pés da Serra Negra, e aquele pequeno bar localizado na rua dos fundos do
mercado municipal. Todos os sábados, dali se espalhavam pelos arredores as
canções de O Índio Apaixonado, na voz inconfundível de Franquito Lopes. Eu
tinha então apenas dezesseis anos.
Não me recordo mais do nome do proprietário do bar, mas as imagens permanecem vivas na lembrança. Havia poucas mesas, um balcão simples, uma radiola ligada a grandes caixas acústicas e uma coleção completa dos discos de vinil de Franquito Lopes. Nas prateleiras, garrafas de Cavalinho, Jurubeba, Velho Barreiro e outras bebidas populares. Na geladeira, Coca-Cola e cervejas. Na radiola, porém, só existia espaço para um artista: o Índio Apaixonado.
Ali se reuniam homens da cidade e da zona rural. Nos dias de feira, chegavam cedo para vender, comprar, prosear e beber. Mas também para aliviar as dores do coração. O bar era uma espécie de confessionário sertanejo, onde as paixões mal resolvidas encontravam companhia nas letras sofridas das canções.
Recordo-me de uma mesa ao centro do salão. Três cabras apaixonados. Um litro de cachaça Cavalinho, uma cerveja e três copos espalhados sobre a madeira gasta. Entre um gole e outro, silêncios longos e olhares perdidos. E, ao fundo, a voz de Franquito Lopes cortando o ar quente da feira:
E se prepara pra amanhã cedo fugir
Não é preciso, com você não brigarei
Eu só lhe peço, não vá sem me despedir.
Muito feliz, mais um ano completei;
E o presente mais triste da minha vida
Foi o desprezo que de você ganhei.
Me abrace agora, mesmo que seja fingindo,
Pois nesta noite quero dormir em teus braços
E pedirei pra Deus me matar dormindo.”
Hoje, tantos anos depois, o bar talvez nem exista mais. A feira mudou, as pessoas mudaram e o tempo levou muita coisa. Mas aquela cena permanece intacta em minha memória: o fundo do mercado, os homens apaixonados, a cachaça sobre a mesa e a voz do Índio Apaixonado transformando sofrimento em música, numa manhã qualquer de sábado, na velha feira da Serra Negra.
*Manoel Belarmino dos Santos - poeta, cordelista, escritor e jornalista (DRT 2678/SE)

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