DIA NACIONAL DO RÁDIO – SILVA LIMA E O INFORMATIVO CINZANO NA MEMÓRIA SERGIPANA


Manoel Belarmino*

 

O rádio foi muito mais que um meio de comunicação. Durante décadas, especialmente nos sertões nordestinos, ele funcionou como ponte entre comunidades isoladas e o mundo, levando informação, cultura, entretenimento e esperança a milhares de lares. Em Sergipe, poucas vozes simbolizam tão bem essa importância quanto a de Silva Lima, radialista que marcou gerações através do inesquecível “Informativo Cinzano”. Neste Dia do Rádio, celebrado em 13 de fevereiro, vale recordar sua trajetória e a influência que exerceu sobre a vida de tantos sergipanos.

O radialista Silva Lima marcou profundamente a história do rádio em Sergipe. Lembro-me bem que, na década de 1970, eu ainda era criança e estudava numa escolinha do interior, nos cafundós do Boqueirão, no sopé da Serra Negra, entre os municípios de Poço Redondo (SE) e Pedro Alexandre (BA). Sempre que começava o programa “Informativo Cinzano”, na Rádio Difusora de Aracaju (hoje Aperipê), com aquela voz forte, firme e inconfundível de Silva Lima, eu já sabia: era hora de ir à escola. Já passava do meio-dia.

Com uma cartilha do ABC, um caderninho de poucas folhas, um lápis e uma borracha “apaga borrão”, tudo guardado numa pequena mochila, eu seguia para a escola, depois de ouvir as primeiras notícias do dia na voz característica e inesquecível daquele radialista.

José da Silva Lima, conhecido como Silva Lima, era baiano, nascido em Salvador. Chegou a Sergipe com apenas 18 anos de idade. Sabia um pouco da língua inglesa e logo se tornou professor de inglês na Escola Normal Ruy Barbosa, em Aracaju. Chegou a ser representante da Revista do Rádio. Ingressou no radialismo em 1950.

No rádio, Silva Lima fazia de tudo: programas musicais, esportivos, policiais e radiojornalismo. Era apresentador extraordinário e entrevistador habilidoso. Um dos radialistas mais dinâmicos já vistos na história do rádio sergipano — e talvez brasileiro. Criativo, como ele, poucos houve.

Naqueles tempos, na década de 1970, quando eu tinha por volta de oito anos, o rádio e os folhetos de cordel eram praticamente os únicos meios de comunicação que chegavam aos sertões do alto sertão sergipano, adentrando as caatingas e levando notícias ao povo. Telefone, jornal, telégrafo, televisão e revista eram coisas distantes, quase um “bicho estranho” para quem vivia naquelas bandas.

O rádio e os folhetos encantavam, contagiavam, informavam e emocionavam. Eu era apaixonado pelo rádio desde menino, e continuo sendo. E também sempre fui apaixonado pela comunicação escrita. Talvez por isso, mesmo sem ter tido a oportunidade de estudar como desejava, tornei-me poeta-cordelista e um metido a escrever como jornalista.

Em Sergipe, muitas rádios surgiram ligadas às necessidades políticas. A Rádio Difusora, por exemplo, nasceu em 1939, no governo de Eronildes de Carvalho (PSD), com o objetivo de divulgar ações governamentais. A Difusora era uma emissora estatal. Depois, em 1953, surgiu a Rádio Liberdade, ligada à UDN. Mais adiante, em 1958, nasceu a Rádio Jornal, de propriedade de integrantes do PSD.

Silva Lima passou pelas duas primeiras emissoras: a Rádio Difusora e a Rádio Liberdade.

Há um episódio famoso que mostra bem a criatividade e ousadia do radialista. Houve uma época em que o PSD estava no poder e Silva Lima comandava a equipe esportiva da Rádio Liberdade, ligada à UDN. Em determinado momento, a emissora foi proibida pelo governo estadual de entrar no Estádio Estadual, em Aracaju, para transmitir uma partida importante de futebol.

Silva Lima, criativo e destemido, decidiu subir nos telhados das residências da Vila Cristina, próximas ao estádio, e de lá realizou a transmissão. Assim, toda a partida foi narrada ao vivo para Sergipe inteiro.

Segundo historiadores, Silva Lima narrava até casamentos. Pelo menos um ele narrou: o casamento de Aerton Menezes Silva, filho de Albino Silva Fonseca, proprietário da Rádio Liberdade. Vale lembrar que Aerton Menezes se casou quatro vezes. O casamento transmitido por Silva Lima foi o primeiro, quando ele se uniu a Marta Cruz, filha do professor Acrísio Cruz.

Silva Lima apreciava teatro, bons filmes, blues e jazz.

Na política, chegou a ser eleito vereador. Apesar disso, nunca fez do mandato sua principal atividade. Homem de microfones, sua voz foi mais ouvida nos estúdios do que na Câmara Municipal. As atas do Legislativo aracajuano registram frequentes ausências às sessões, demonstrando que sua verdadeira vocação era o rádio.

Os programas radiofônicos “Informativo Cinzano”, de Silva Lima, e “Calendário”, de Santos Mendonça, na Rádio Liberdade, faziam enorme sucesso. Também eram marcantes os programas de auditório, os shows de calouros acompanhados por grandes bandas e artistas da terra, como Antônio Teles e Vilermando Orico, além de nomes nacionais, a exemplo de Ângela Maria. As radionovelas, por sua vez, completavam o encanto e mobilizavam multidões de ouvintes.

Silva Lima faleceu no domingo de carnaval de 1983, deixando uma lacuna irreparável na história do rádio sergipano. Sua voz silenciou, mas permanece viva na memória popular de gerações que aprenderam a acompanhar o tempo, os acontecimentos e a própria rotina pelo som de suas palavras. Recordá-lo neste Dia Nacional do Rádio é também reconhecer a importância de um meio de comunicação que ajudou a formar identidades, aproximar pessoas e construir a história de Sergipe.


*Manoel Belarmino dos Santos – formando em jornalismo e escritor.

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